domingo, 12 de fevereiro de 2012

“Meus queridos

“Eu sempre me perguntei se o suicídio seria uma coragem ou uma fraqueza e, por mais que me questionasse, não alcançava solução cabível. Hoje eu sei: para o nobre, suicídio é coragem; para o vulgo, covardia. Vocês então pensariam que eu me acreditava um nobre e que meu ato traduzia coragem. Não, nada disso. Talvez por pura pretensão, ou melhor, por puro engano — talvez até por uma aguda percepção — eu me soubesse um nobre em potencial. Repito, em potencial. Pois não tive paciência, capacidade, enfim, não tive coragem de esperar o desabrochar de tal nobreza de espírito. Getúlio Vargas matou-se após completar sua obra — provou sua nobreza, morreu com coragem. Eu, morro como covarde.
“Claro, não foi a primeira vez que pensei nisso. Desde a adolescência sonho com minha morte. Minhas depressões dissipavam-se com tais fantasias e, ao final, não eu mas algo em mim morria, deixando-me a paz de espírito como herança. Infelizmente fui perdendo pouco a pouco tão útil capacidade onírica e, hoje, só a realidade poderia levar a cabo tal missão.

“Não, não tenho medo da morte. Eu já a senti algumas vezes e ela pareceu-me boa. O que realmente temo é a possibilidade de não-realização. Por medo dela, eu me mato. Pois tenho, desde muito, cultivado meu ser para grandes criações — não posso trair meu destino, mas posso esquivar-me de seu raio de ação, sendo que o que está fora é a própria morte. O destino contém sua própria impossibilidade, pois nada pode ser absoluto.

“Eu estou cansado. E estou envergonhado por estar cansado — aos olhos alheios — com tão pouco. Meu sofrimento é pequeno, mas minha dor é grande. Tampouco suporto repisar caminhos trilhados já tantas vezes: o lobo da estepe, coitado do Álvaro de Campos, que nunca será nada! Mas para quê tanto pudor? Realmente não tenho importância absolutamente nenhuma.

“Não se culpem por meu ato.
me adjetivem como quizerem , fraco, covarde , louco, SUICIDA...
“Todo meu amor,



Ramon

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